É preciso perder para ganhar… mas não perca o português
Verônica Bareicha - 04/08/2026 10h29
(Imagem ilustrativa) Foto: PexelsDia desses, assisti a um vídeo de um influencer que contava ter recebido uma mensagem de uma seguidora pedindo ajuda. Ela estava grávida e havia sido agredida pelo companheiro. A partir daí, ele falou sobre relacionamentos abusivos e sobre o motivo de, muitas vezes, uma pessoa permanecer neles.
Confesso que o tema mexeu comigo. Sim, sou mulher e, embora não seja progressista, há momentos em que a frase “mexeu com uma, mexeu com todas” me alcança; se posso dizer assim. Afinal, não quero que ninguém sofra. Muito menos uma mulher grávida.
Foi pensando nisso que me veio à mente a letra de uma canção. Ou, pelo menos, o que eu achava que era. Risos. Na minha memória, ela dizia: “É preciso perder para ganhar”. E, naquele instante, pensei justamente na mulher da história; pois ela precisava perder aquele relacionamento para ganhar a si mesma.
Mas fui ouvir a música. Detalhe: trata-se de um louvor da saudosa Ludmila Ferber. E descobri que minha memória havia me pregado uma grande peça. Na verdade, a letra diz: “É preciso ceder para ganhar…”
Eita! Confesso que a frase saiu um pouco do caminho que eu imaginava para este texto. Mas guarde essa ideia de ceder para ganhar. Prometo voltar a ela daqui a pouco. Antes, porém, vamos falar de perder. Aliás, em bom português, você sabe quando usar perda ou perca?
Eu sei, tem muita gente que se perde justamente aí. E, sim, a cabeça da revisora, da escritora e da professora fez toda essa curva para chegar até aqui, hoje. Mas fique comigo!
Bora lá: embora sejam parecidas na escrita e na pronúncia, perda e perca pertencem a classes gramaticais diferentes.
Perda, com d, é um substantivo. Ou seja, é o nome que damos ao ato ou ao resultado de perder alguma coisa.
Por exemplo:
• A perda de confiança costuma ser algo difícil de se reparar.
• A perda de tempo nunca traz bons resultados.
• A perda de um ente querido é uma das experiências mais dolorosas da vida.
Perceba que, por ser um substantivo, a palavra costuma aparecer acompanhada de artigos ou pronomes: a perda, uma perda, essa perda, minha perda.
Já perca, com c, é uma forma do verbo perder. Ela aparece, principalmente, no presente do subjuntivo e no imperativo.
Olha só:
• Espero que você não perca a capacidade de reconhecer o seu próprio valor.
• Não perca nunca a oportunidade de reconstruir sua vida.
• Tomara que você não perca a esperança.
Note que, ao usarmos perca, não estamos nomeando um fato. Estamos falando de uma ação.
Então, sempre que surgir a dúvida, a respeito de perda ou perca, faça uma pergunta simples: estou falando de uma condição ou de uma ação? Se estiver nomeando um prejuízo, uma ausência ou um fato, use perda. Olha só: quem vive um relacionamento abusivo corre o risco de perder muito mais do que imagina.
Agora, se estiver indicando o ato de perder, use perca. Por isso, dizemos: não perca tempo!
Mas me permita voltar à música. Como eu disse, ela não fala sobre perdas; mas sobre perdão. Sobre abrir mão da mágoa para encontrar liberdade. “Ceder para ganhar”.
Em um relacionamento saudável, ceder faz parte da convivência. Às vezes, abrimos mão de uma vontade para preservar o diálogo, a paz e o respeito. O problema começa quando apenas uma pessoa cede. Cede os sonhos, a liberdade, a autoestima, a própria identidade. Nesse momento, o que deveria ser amor passa a produzir perdas.
Para finalizar, há perdas que nos tornam mais fortes. Há momentos em que ceder é um gesto de amor. Mas há situações em que partir é o único caminho possível.
Então hoje, se eu pudesse lhe fazer um único pedido, seria: não perca a oportunidade de aprender sempre, recomeçar quando for preciso e cuidar bem do seu coração. Afinal, algumas perdas nos ensinam português. Outras nos ensinam a viver.
Um abraço e até a próxima!
Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.
* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erroSe você encontrou erro neste texto, por favor preencha os campos abaixo. Sua mensagem e o link da página serão enviados automaticamente à redação do Pleno.News, que checará a informação.
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