O Super El Niño: Como o fenômeno vai afetar nossas vidas no Brasil
Eduardo Baldaci - 04/08/2026 09h39
Imagens de satélite mostram a diferença das temperaturas médias da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico Tropical (representadas por vários tons de vermelho e laranja para indicar o aquecimento) Foto: NOAA SatellitesComo a minha rotina de observações astronômicas sempre dependeu diretamente do clima, a meteorologia virou uma paixão pessoal. Quando mudei para os Estados Unidos, percebi de cara um enorme vazio de informações climáticas voltadas para os imigrantes.
Por cultura, nós costumamos ser reativos: só nos preocupamos quando a água já bateu no pescoço. Foi aí que decidi agir e tornei-me voluntário da NOAA (Administração Oceanográfica e Atmosférica Nacional dos EUA) para traduzir e divulgar alertas preventivos em português na mídia local.
Com o tempo, ganhei um apelido carinhoso que carrego com orgulho: “O Cara do Clima”. E o mais gratificante é ver a gratidão de tantos brasileiros que aprenderam a colocar a prevenção climática na rotina.
A cultura do improviso e a névoa da fé
Essa experiência me mostrou o quanto nossa cultura prefere fechar os olhos para o clima extremo. A gente nunca acha que a tragédia vai bater à nossa porta. Para piorar, até a religiosidade entra de forma equivocada nessa conta.
Não são poucas as pessoas que oram para que uma tempestade mude de rota e desabe sobre a cidade vizinha. Sinceramente, não sei em qual versículo bíblico encontraram base para isso, afinal, na cidade ao lado também vivem filhos de Deus que precisam de proteção. Creio que a informação clara e a prevenção são as melhores formas de altruísmo.
Nossa história recente no Brasil demonstra a nossa falta de preparo. De tornados no Sul a temporais no Sudeste, o que vemos é uma crônica ausência de monitoramento, alerta e prevenção por parte das autoridades. Por isso, a pergunta não sai da minha cabeça: por que não avisar a população a tempo?
Se os próximos meses prometem ser duros e o governo não nos dá tempo para preparar as cidades, precisamos tomar as rédeas e montar nossos próprios Planos A, B e C.
O retrato do Super El Niño
O El Niño, o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, deixou de ser um conceito abstrato dos livros de geografia para virar o principal motor de instabilidade no nosso dia a dia.
E o cenário atual aponta para a chegada (ou permanência) de episódios de altíssima intensidade: o chamado Super El Niño. Na prática, ele reorganiza a circulação dos ventos no planeta e rasga o mapa do clima na América do Sul, dividindo o Brasil em dois extremos.
O impacto direto nas nossas regiões
● Norte e Amazônia: A falta de chuva drástica reduz o nível dos rios, isolando comunidades ribeirinhas e paralisando o transporte de mercadorias. O solo seco e o calorão criam a combinação perfeita para queimadas devastadoras.
● Nordeste: A estiagem prolongada afeta o consumo de água, mata o gado de sede e destrói a produção da agricultura familiar, que depende do calendário das águas.
● Sul: É o oposto. Temporais sem fim fazem rios e barragens transbordarem, inundando cidades e apodrecendo lavouras inteiras no campo.
● Sudeste e Centro-Oeste: As frentes frias ficam “presas” no Sul. O resultado por aqui são bloqueios atmosféricos com ondas de calor extremo, aumento do consumo de energia elétrica e pressão enorme sobre os reservatórios.
Quando a ciência encontra o planeta aquecido
O grande perigo atual é que o El Niño não age sozinho. Ele interage diretamente com o aquecimento global.
A elevação da temperatura dos oceanos funciona como uma injeção de combustível na atmosfera: mais calor, mais evaporação e mais energia acumulada. É esse coquetel que transforma um fenômeno moderado em um Super El Niño, fazendo as temperaturas do Pacífico superarem a marca de 2°C acima da média.
O desafio atual da ciência não é apenas prever quando o fenômeno virá, mas entender como ele reage em um planeta já aquecido pela ação humana. Essa combinação gera eventos extremos em escalas nunca vistas.
Prevenir é o único caminho
A repetição dessas tragédias escancara nossa urgência por políticas públicas de adaptação. Obras de drenagem urbana, sistemas modernos de alerta da Defesa Civil e tecnologias agrícolas resistentes ao clima não são mais luxo ou projeto para o futuro e sim urgências para hoje.
Enquanto o poder público não vira essa chave, cabe a cada um de nós entender o que está acontecendo, buscar informação de qualidade e se proteger. O planeta mudou; nossa postura diante do clima precisa mudar também. Com previsão de início no final de 2026 e início de 2027, o Super El Niño vai afetar a sua vida. Não é tempo de ficar apavorado, mas sim preparado!
Eduardo Baldaci é teólogo formado pelo STBN, defensor do Criacionismo Bíblico, astrônomo amador reconhecido pela NASA e jornalista científico há 43 anos. É pastor Batista há 34 anos atuando na The Grove Church (Titusville, FL-EUA).
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