A NASA veio. A universidade, nem tanto
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A NASA veio. A universidade, nem tanto

Por Amplifica
26 de August, 2026
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Imagem da Notícia: A NASA veio. A universidade, nem tanto

Amplifica - 26/08/2026 09h41

Grupo de alunos (Imagem ilustrativa) Foto: Pexels

Em outubro de 2025, participei da organização do maior hackathon do mundo numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. O mesmo acontecia em outras 550 cidades, 167 países, com mais de 114 mil participantes. Uma operação global coordenada pela Divisão de Ciências da NASA. O Local Lead em Lajeado era um mero aluno de graduação.

Conto isso não por vaidade. Conto porque o que veio antes disso importa mais.

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Anos antes, ainda no ensino médio técnico, participei do NASA Space Apps pela primeira vez, de forma remota, durante a pandemia. Alguma coisa ficou. A sensação de que problemas reais podiam ser atacados com dados abertos, criatividade e 48 horas de foco.

Nos anos seguintes, tentei participar das edições presenciais, mas o evento mais próximo ficava a horas de distância. A distância sempre venceu.

O que me incomodava não era só a logística. Era olhar para a universidade onde estudava e ver talentos que se formavam e partiam. Não por falta de capacidade. Por falta de ambiente. E me perguntava: quem é responsável por criar esse ambiente? A resposta óbvia seria a instituição. Mas a instituição, descobri, tem outras prioridades.

Tentei criar um hackathon do zero no ano anterior. Não deu. Falta de apoio, de estrutura, de pessoas dispostas a puxar o peso junto. Aprendi mais com esse fracasso do que com muita coisa que passou pela sala de aula.

No ano seguinte fui aprovado pela organização do NASA Space Apps. Recebi treinamentos direto da equipe global. Organizei o evento. As vagas esgotaram. Havia lista de espera. E a maior resistência que encontrei não veio de fora. Isso precisa ser dito com clareza, sem rancor e sem ingenuidade: a burocracia universitária foi o principal obstáculo de um evento que colocou a cidade no mapa global da inovação.

Não é uma acusação pessoal a ninguém. É um diagnóstico de sistema. Mas sistemas não surgem do nada. Eles refletem escolhas, valores e, muitas vezes, medos.

A universidade brasileira tem um problema que raramente se admite em voz alta. Ela se apresenta como espaço plural e neutro, mas opera com um viés muito específico sobre o que merece apoio, o que merece visibilidade e quem merece ser facilitado. Iniciativas que nascem dentro da estrutura formal, endossadas pelos canais corretos, com o vocabulário certo, fluem. Iniciativas que nascem de um aluno que decidiu agir por conta própria encontram formulário, prazo e silêncio. Não é conspiração. É cultura institucional. E a cultura institucional tem autores.

O que me fascina nessa história não é o evento em si. É o que ele revela sobre onde a inovação realmente nasce. Não nasce de editais. Não nasce de comitês. Nasce quando alguém decide que a ausência de permissão não é o mesmo que a proibição. Que a cadeira vazia num espaço importante não é convite para esperar, é convite para sentar.

A universidade que se diz motor da inovação regional precisaria ser a primeira a reconhecer quando um aluno faz o que ela deveria ter feito. Em vez disso, ergueu obstáculos e colheu o crédito depois. Isso também é um padrão. E padrões merecem ser nomeados.

Não estou dizendo que a universidade não tem valor. Estou dizendo que o valor que ela declara ter e o valor que ela pratica quando alguém desafia o script são, com frequência, coisas bem diferentes. E que enquanto essa distância não for reconhecida, ela vai continuar cobrando o preço mais alto de quem tem mais a entregar.

Aquela que os céticos invocam quando o brasileiro ousa fazer algo grande não esperou. Os 114 mil participantes ao redor do mundo não esperaram.

A pergunta que fica é simples e desconfortável: o que a universidade estava fazendo enquanto um aluno organizava sozinho o maior hackathon do mundo dentro dela?

* Jeferson Scheibler, autor do texto, é acadêmico de engenharia de software, embaixador da ICSC, Local Lead do NASA Space Apps e fellow do Instituto Amplifica.

Amplifica é um instituto que dá voz a jovens lideranças comprometidas com as ideias de liberdade.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erro

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