Quo vadis, Supremo?
Rafael Satiê - 20/09/2026 13h24
“Quo vadis?” Em bom português: “Aonde vais?” (Imagem ilustrativa) Foto: David Brown/PexelsHá momentos em que uma instituição chega a uma encruzilhada tão profunda que já não basta perguntar como ela sobreviverá à próxima crise. É preciso perguntar se aquilo que sobreviverá ainda merecerá carregar o mesmo nome.
Talvez este seja o momento vivido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Em meio a uma crise que há muito deixou de ser apenas jurídica, o STF parece ter chegado até o ponto em que suas maiores ameaças já não estão nas ruas, no Congresso, no Palácio do Planalto ou em governos estrangeiros. Estão dentro de casa. Nos corredores, nos gabinetes, nas decisões tomadas entre aqueles que depois precisarão julgar uns aos outros.
É nesse cenário que uma antiga expressão cristã volta a fazer sentido: “Quo vadis?” Em bom português: “Aonde vais?”.
Segundo a tradição, Pedro abandonou Roma quando encontrou Cristo caminhando na direção contrária. Ao perguntar “Quo vadis, Domine?”, ouviu uma resposta que o fez compreender que fugir também era uma escolha.
Pedro então retornou. Voltou para enfrentar aquilo de que tentava escapar.
Hoje, talvez seja o Supremo quem esteja deixando Roma. Os episódios envolvendo o Banco Master colocaram diante da Corte algo que nenhuma instituição gosta de enfrentar: a possibilidade de que os mesmos mecanismos de escrutínio utilizados contra tantos outros agora alcancem seus próprios integrantes.
O relatório produzido pela Polícia Federal a partir do material obtido no celular de Daniel Vorcaro apontou supostos diálogos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes, fato que levou André Mendonça a encaminhar a questão para exame institucional.
O próprio STF registra que o mérito dessas imputações ainda não foi julgado. Isso importa porque não é necessário antecipar uma condenação para reconhecer a gravidade do momento.
O material que serve de base para esta reflexão descreve mensagens, demonstrações de proximidade, ofertas de benefícios e relações que precisam ser esclarecidas pelas instituições competentes.
Também apresenta uma interpretação extremamente crítica das conexões políticas e financeiras existentes ao redor do Banco Master.
Algumas dessas conclusões pertencem ao autor e ainda dependem de comprovação, mas os elementos relatados ajudam a explicar por que a crise assumiu uma dimensão que já ultrapassa um único ministro.
O problema do Supremo, portanto, é maior do que Alexandre de Moraes. É o próprio Supremo.
Depois de anos acumulando poderes, interferindo em algumas das maiores disputas políticas do país e tomando decisões que dividiram profundamente a sociedade brasileira, a Corte chegou ao momento em que precisa demonstrar que as regras que aplica aos outros também valem para dentro de seus muros.
E talvez seja exatamente aí que esteja sua maior dificuldade. Instituições que passam muito tempo exercendo poder sem serem confrontadas acabam desenvolvendo uma espécie de instinto de autopreservação.
Dessa forma, qualquer crítica passa a ser interpretada como ataque. Qualquer questionamento transforma-se em ameaça. Qualquer investigação envolvendo seus integrantes corre o risco de ser tratada não como oportunidade de saneamento, mas como perigo existencial.
É assim que instituições começam a apodrecer. Não necessariamente quando surge o primeiro escândalo, mas quando preservar a própria estrutura passa a ser considerado mais importante do que descobrir a verdade. O STF vive hoje essa escolha.
E, dentro dessa Corte, surge André Mendonça como personagem inevitável desse momento. Não porque um homem possa sozinho purificar uma instituição, nem porque deva ser colocado acima de qualquer fiscalização. Mas porque sua atuação neste episódio representa uma possibilidade diferente: a ideia de que proteger o Supremo talvez não signifique proteger seus ministros, mas permitir que a verdade alcance inclusive aqueles que vestem a mesma toga.
Há ainda um elemento impossível de ignorar para quem enxerga este período brasileiro também pela perspectiva cristã. André Mendonça não é apenas ministro. É pastor.
Em um Estado laico, isso evidentemente não lhe concede poder adicional nem permite que a Bíblia substitua a Constituição. Mas a fé assumida publicamente por um homem também produz responsabilidade moral.
E, para quem acredita que o Brasil atravessa uma guerra espiritual, talvez poucos lugares simbolizem tão claramente esse conflito quanto o próprio Supremo.
Não se trata de uma guerra entre direita e esquerda, pelo menos não em seu sentido mais profundo. Trata-se do velho conflito entre verdade e mentira, justiça e conveniência, coragem e medo, luz e aquilo que prefere permanecer escondido. Toda guerra espiritual cobra posicionamento.
A Bíblia está repleta de homens colocados diante de estruturas muito maiores do que eles. Alguns se dobraram diante do poder. Outros compreenderam que existem momentos em que permanecer em silêncio também significa fazer uma escolha.
É aí que a trajetória de Mendonça passa a carregar um simbolismo particular. O desafio de um pastor dentro da mais poderosa Corte do país, talvez não seja simplesmente votar de maneira diferente dos colegas. Talvez seja necessário permanecer disposto a abrir portas mesmo quando atrás delas possa haver algo que a própria instituição preferiria não encontrar.
É justamente esse o sentido de “Quo vadis”.
Para onde você irá quando o caminho correto deixar de ser confortável? Para onde irá quando a verdade puder atingir seus amigos, colegas ou a instituição da qual você próprio faz parte? E, principalmente, para onde irá o Supremo?
Talvez tenha chegado o momento de considerar uma possibilidade que durante muito tempo pareceria absurda: o fim do Supremo como o conhecemos não precisa significar o fim da Suprema Corte brasileira. Pode significar justamente sua reinvenção.
Instituições não são prédios, brasões ou 11 cadeiras dispostas em um plenário. Instituições existem enquanto possuem legitimidade.
Quando essa legitimidade começa a desaparecer, conservar a estrutura externa pode ser apenas uma maneira de prolongar algo que internamente já morreu.
Talvez o STF precise perder parte daquilo que se tornou para reencontrar aquilo que deveria ser. Menos poder concentrado. Mais limites. Mais transparência. Mais mecanismos de impedimento quando ministros estiverem pessoalmente envolvidos em determinada controvérsia. Mais disposição para que autoridades sejam investigadas sem que isso seja apresentado como uma agressão à própria democracia.
Até porque democracia alguma deveria depender da intocabilidade de 11 pessoas.
A crise do Banco Master pode terminar sem produzir nenhuma das consequências imaginadas por seus críticos. Investigações podem confirmar algumas suspeitas, rejeitar outras ou revelar fatos completamente diferentes daqueles discutidos agora. Isso faz parte do devido processo.
Mas algo já mudou. O Supremo foi obrigado a olhar para dentro. E talvez seja justamente nesse momento que esteja escondida sua última oportunidade de reconstrução.
Às vezes, uma instituição precisa chegar muito perto do fim para compreender por que foi criada.
Pedro precisou abandonar Roma para perceber que deveria voltar. Talvez seja esse também o destino do STF: chegar ao limite de sua própria crise para compreender que continuar exatamente como está pode ser impossível.
A pergunta, portanto, permanece pairando sobre Brasília. Se continuar pelo mesmo caminho, talvez encontre apenas a deterioração daquilo que ainda resta de sua autoridade moral.
Se tiver coragem de se reinventar, porém, aquilo que parece o começo do fim poderá tornar-se outra coisa. O fim deste Supremo. E, talvez, o nascimento de uma Corte novamente digna de ser chamada de Suprema.
Rafael Satiê é vereador pelo Rio de Janeiro e presidente da Comissão de Combate ao Racismo.
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