A fé nos bastidores da corrida espacial
Eduardo Baldaci - 22/09/2026 09h32
Borman, Lovell e Anders, protagonistas da leitura bíblica transmitida na véspera de Natal de 1968 Foto: NASAEntre 1968 e 1971, sob a vigilância de uma agência estatal formalmente laica e a pressão geopolítica contra os soviéticos, tripulantes do programa Apollo protagonizaram episódios de devoção religiosa a centenas de milhares de quilômetros da Terra.
Longe de representar uma política institucional da NASA, esses gestos partiram de convicções pessoais dos próprios astronautas e do respaldo de grupos cristãos que operavam nos bastidores do Centro Espacial de Houston.
O momento de maior repercussão pública aconteceu na véspera do Natal de 1968, a bordo da Apollo 8.
Frank Borman, Jim Lovell e William Anders, os primeiros homens a orbitar a Lua, abriram uma transmissão de televisão mostrando a superfície crivada de crateras em contraste com a Terra ao fundo.
Os três dividiram a leitura dos dez versículos iniciais de Gênesis. Borman fechou o contato com votos que entraram para a história: “Boa noite, boa sorte, um Feliz Natal e que Deus abençoe a todos vocês, todos vocês na boa Terra.”
A reação em solo foi imediata e gerou um imbróglio judicial. A ativista ateia Madalyn Murray O’Hair acionou a Suprema Corte americana contra a NASA, alegando violação do princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado.
Embora a Justiça tenha arquivado o processo, a cúpula da agência recomendou discrição redobrada para evitar celebrações religiosas em transmissões abertas nas missões seguintes.
O efeito prático dessa cautela ficou evidente já no pouso da Apollo 11, em julho de 1969. Pouco após o módulo Eagle tocar o Mar da Tranquilidade, Buzz Aldrin, presbiteriano convicto, pediu pelo rádio alguns instantes de silêncio a quem acompanhava a transmissão na Terra.
Na sequência, cortou o canal de áudio externo e celebrou a Santa Ceia na intimidade da cabine. Consumiu um pedaço de pão e uma pequena dose de vinho levados em um estojo pastoral, lendo em silêncio o texto de João 15:5 — marcando, sem alarde, os primeiros alimentos consumidos em outro corpo celeste. Ele só voltaria a citar passagens bíblicas (especificamente o Salmo 8) em rede aberta durante o voo de regresso.
A tentativa de levar a Bíblia completa ao solo lunar também envolveu planejamento metódico. Em 1967, comovidos pela tragédia da Apollo 1, funcionários da agência formaram a Apollo Prayer League com a meta de depositar as Escrituras na Lua.
A iniciativa quase naufragou de vez com o acidente da Apollo 13 em 1970, mas vingou em fevereiro de 1971, com a Apollo 14.
Edgar Mitchell transportou a bordo do módulo Antares cerca de 300 microfichas de 3,8 centímetros quadrados contendo as 1.245 páginas da Bíblia King James, legíveis apenas por microscópio. Parte do material ficou no solo e o restante retornou à Terra para coleções e memoriais.
Um dos exemplares da Bíblia em formato de microchip Foto: NASAMeses depois, durante a Apollo 15, David Scott ainda colocou um exemplar em miniatura no painel do jipe lunar, na região de Hadley-Apennine, ao lado de um memorial aos astronautas e cosmonautas mortos na corrida espacial.
Longe das teses conspiratórias modernas sobre fraudes espaciais ou formatos exóticos do nosso planeta, o registro factual mostra que a exploração lunar foi conduzida por homens de carne e osso, muitos dos quais recorreram à própria fé para lidar com a imensidão do espaço e o risco da empreitada.
Eduardo Baldaci é teólogo formado pelo STBN, defensor do Criacionismo Bíblico, astrônomo amador reconhecido pela NASA e jornalista científico há 43 anos. É pastor Batista há 34 anos atuando na The Grove Church (Titusville, FL-EUA).
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