Sc, xc e uma piscina cheia de ratos
Verônica Bareicha - 23/09/2026 11h16
“A tua piscina está cheia de ratos…”, cantava Cazuza Charge: IA\Chat GPTFui adolescente na efervescência dos anos 90. Se você é dessa época, é provável que se identifique com o que escrevo.
Naqueles dias, o pop rock era um ritmo forte; os jovens rebeldes com causa, ou sem, amavam. E um jovem, a quem chamavam de Poeta, que lutava contra uma doença incurável, cantava, em função de suas vivências e também por causa da política brasileira:
A tua piscina está cheia de ratos, as tuas ideias não correspondem aos fatos…
Corta a cena. Voltemos ao hoje. Mais de 30 anos depois, assistimos, inertes, a uma piscina cheia de ratos: alguns togados, outros vestidos de cidadãos de bem, muitas notas de dólares, charutos e uísques caros circulando. O excesso da podridão. Em poucos casos, a exceção da limpeza.
Você sabe a que me refiro… Mas, como essa é uma coluna de português, guarde todas essas informações, prometo voltar a elas depois, e vamos à nossa aula de hoje. Combinado?
Preste atenção às palavras que destaquei no texto: adolescente, efervescência, piscina, excesso e exceção. Essas palavrinhas possuem sequências de duas letras que, nesses casos, representam um único som: SC e XC com som de S. A essas sequências chamamos de dígrafos.
O xis não é entender o que é um dígrafo, mas saber por que, nesses casos, não escrevemos apenas com S… Aliás, sabia que essas são palavras frequentemente escritas de forma errada?
Não sei se você reparou, caro leitor, que, nos últimos textos, tenho tentado ajudá-lo justamente com essas palavrinhas que soam de um jeito, mas se escrevem de outro.
Então, hoje, vamos “atacar” as palavras com SC e XC. Beleza?
E por que escrevemos piscina com SC, se ouvimos apenas um som de S? Porque a escrita não reproduz a fala letra por letra. Ela também conserva marcas da história das palavras. Piscina, por exemplo, vem do latim piscina, palavra relacionada a piscis, que significa “peixe”.
E como saber se esse SC é um dígrafo? Até porque, em alguns casos, ele não será.
A primeira dica é observar a letra que vem depois. Quando SC aparece antes de E ou I, pode representar um único som de S, como em adolescer e piscina.
Outra dica que posso dar é prestar atenção aos verbos. Muitas formas com SC no infinitivo viram SÇ na conjugação para manter o som de S antes de A ou O. O que muda é a grafia necessária para preservar esse som. Por exemplo: nascer – nasço; crescer – cresço; descer – desço; florescer – floresço.
De igual forma, XC, quando vem antes de E ou I, as duas letras formam um dígrafo. E aí, temos o bendito som de S. Veja, as palavras exceção, excelente, excesso, exceto, excêntrico, excitar e excepcional, por exemplo.
Eu sei, essas pistas ajudam, mas não resolvem todas as dúvidas. Bom seria se resolvessem. E, de verdade, não existe uma regra que nos permita descobrir, apenas pelo som, se uma palavra deve ser escrita com SC ou XC. Por isso, conhecer as palavras e consultar o dicionário, como sempre digo, continua sendo muito importante.
Mas e a piscina do Cazuza? Pois é… quando penso nessa piscina cheia de ratos e num sujeito que comprou todos quantos pôde à esquerda, à direita, no centro, na Justiça e sabe-se lá mais onde, me pergunto: “Seríamos todos nós, ainda que arrotemos ser cidadãos de ‘bem’, compráveis?”
De verdade, espero que a resposta seja “não”. Até porque a adolescente rebelde sem causa que fui ainda se indigna, da mesma forma, com a podridão da política, das pessoas, do sistema…
A canção diz ainda:
Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não para, não para…
E agora, aqui da maturidade, eu penso: chegou a minha hora de ajudar o meu país a mudar essa situação. Basta! Eu não quero mais um futuro que repita o passado. Muito menos um museu de grandes novidades que não têm nada de novo.
E, como o Poeta, nós já sabemos: o tempo não para… portanto, façamos a nossa parte por um país melhor. Ajudemos a escoar a água dessa piscina podre, por favor!
De verdade, espero ter ajudado com o SC e o XC, mas também na reflexão.
Um abraço e até a próxima!
Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.
* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erroSe você encontrou erro neste texto, por favor preencha os campos abaixo. Sua mensagem e o link da página serão enviados automaticamente à redação do Pleno.News, que checará a informação.
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