A censura bateu na porta da Globo. Agora ela percebeu?
Sara Ganime - 02/10/2026 10h42
Estúdio do debate presidencial na Globo Foto: Reprodução/TV GloboHá anos eu escrevo, falo e repito, em todo espaço que me dão, que o Brasil vive uma escalada de censura patrocinada pelo Judiciário. E há anos ouço, de boa parte da imprensa tradicional, que isso é exagero, teoria da conspiração ou choro da oposição.
Nesta quinta-feira (1º), a Globo cancelou o debate presidencial menos de uma hora antes de ir ao ar. Nas palavras da emissora, foram “sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes do debate”, que “criaram insegurança jurídica”.
Eu concordo com cada palavra da nota da Globo. E é justamente por isso que preciso escrever este texto.
O TSE proibiu o púlpito vazio de Lula e as perguntas ao ausente. O STF mandou incluir um candidato fora das regras.
Na mesma semana, Joel Pinheiro, comentarista da GloboNews, teve um vídeo crítico ao Supremo derrubado do Instagram.
Censura no cenário do debate. Censura no comentarista da casa. Não dá mais para fingir que é com os outros.
Volto a 2019, porque a memória curta é parte do problema. Alexandre de Moraes mandou tirar do ar a reportagem O amigo do amigo de meu pai, da Crusoé, dentro de um inquérito em que o Supremo era vítima, investigador e juiz.
É justo reconhecer: a imprensa reclamou e Moraes recuou. Mas o inquérito ficou.
Depois vieram o documentário da Brasil Paralelo suspenso, canais desmonetizados, perfis derrubados e o X fora do ar no país. E a maior emissora do Brasil chamava tudo isso de “combate à desinformação”.
Fico pensando qual hipótese é pior. Se a Globo não entendeu, em sete anos, que censura não tem lado, temos um problema de competência jornalística. Se entendeu e fingiu que não, porque o alvo era a direita, o problema é de caráter.
O pastor alemão Martin Niemöller já contou essa história: primeiro vieram buscar os outros, e ele se calou, porque não era com ele. Quando vieram buscá-lo, não havia mais ninguém para protestar.
Não estou comemorando. Censura contra a Globo também é censura, e eu a condeno com a mesma firmeza com que condenei todas as outras. Mas a emissora deve uma reflexão ao público sobre os anos em que tratou como exagero o alerta de quem via isso acontecer. Defender a imprensa livre inclui defender o veículo que você odeia.
A censura bateu na porta da Globo. Torço para que, desta vez, ela abra os olhos, e não só a porta.
Sara Ganime é jornalista e defensora da liberdade de imprensa e de expressão. É líder do LOLA Rio de Janeiro e fellow do María Oropeza Activism Fellowship. Com passagens pela cobertura política no Congresso Nacional, acompanha de perto os movimentos liberais na América Latina.
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