Da escolha ao voto útil: Pequeno glossário das eleições
Verônica Bareicha - 02/10/2026 10h06
Urna eletrônica (Imagem ilustrativa) Foto: FreepikCresci em uma família apolítica. Meus pais, como muitos de sua geração, acreditavam que cristãos não deveriam se misturar com política, pois era algo sujo, cheio de conchavos e conluios obscuros. Durante anos, ouvi minha mãe dizer que, se no Brasil fôssemos uma verdadeira democracia, o voto não seria obrigatório, mas facultativo.
Eu ouvia e pensava: “O que democracia quer dizer, afinal?”.
Bom… você deve saber que o termo vem do grego antigo, da união de demos (povo) e kratos (poder), expressando a ideia de que o poder emana do povo.
Assim, eu ouvia a ideia do voto facultativo e me questionava: “Como o povo pode expressar sua vontade e seu poder se não for votar?”
Fui crescendo, tendo essas ideias morando em mim. Até o dia em que entendi que até o fato de não se escolher é uma escolha. E pior: quando não atuo no meu direito de escolha, no “meu poder” na democracia, me abstendo de defender a minha opinião, entrego na mão de outros aquilo que eu deveria escolher.
Tendo isso em mente, minha relação com a política e minhas escolhas mudaram bastante.
Pensando em tudo isso, e querendo conversar de perto com você, que se prepara para ir às urnas neste domingo (4), preparei um pequeno glossário para que entenda o que está por trás de algumas das palavras que compõem esse grande movimento chamado “eleição”.
Veja bem: eleição vem do latim electio, que significa “escolha”, e é derivado de eligere, “escolher”. A palavra carrega, portanto, desde a sua origem, a ideia de selecionar, separar, escolher alguma coisa entre outras.
O próprio sentido atual de eleição continua muito próximo disso: é o processo de escolha por meio de uma votação.
Depois, temos candidato, palavra que vem do latim candidatus, que significa “vestido de branco”. Já tinha ouvido falar nisso?
Olha só, a história conta que, na Roma antiga, quem pretendia ocupar um cargo público usava uma toga branca que o identificava como candidato. Essa roupa se chamava toga candida e representava boas intenções e pureza de caráter.
Claro que hoje, os candidatos não usam uma roupa branca. Mas esperamos sim que haja “brancura” em seu caráter; que ele seja honesto em sua boa vontade de representar o povo.
Depois, temos voto. A palavra vem do latim votum, e significa promessa solene feita a uma divindade, voto, oferenda, desejo ou aspiração. Sua origem está no verbo vovere, que significa “prometer solenemente”.
Com o passar do tempo, a palavra ganhou também o sentido político que conhecemos hoje: a manifestação da vontade do eleitor em uma escolha a quem promete solenemente honrá-lo.
Aqui, quero abrir espaço para falar da palavra útil que vem do latim utilis e carrega os sentidos de aquilo que tem utilidade, que serve, que é proveitoso ou vantajoso.
E por que o faço logo após falar de voto? Simples: porque gostaria de que o eleitor pensasse comigo em voto útil, que nada mais é do que uma forma de voto estratégico.
Em determinadas circunstâncias, o voto útil pode não ser dado ao candidato que mais admiramos, mas àquele que, diante do cenário da disputa, será capaz de produzir o resultado que queremos. Captou?
Eu sei: quando votamos, queremos fazê-lo firmados em nossos princípios e valores. Mas a que custo? Afinal, escolher também é considerar as consequências que virão.
E, quando olhamos para o cenário que temos diante de nós, talvez seja necessário pensar no que pretendemos produzir com o nosso voto.
Penso que voltamos ao ponto de onde começamos: escolher é exercer poder.
E é justamente aqui que o voto deixa de ser apenas uma preferência e passa a ser também uma responsabilidade.
Posso votar naquele que mais se aproxima das minhas convicções; posso considerar o cenário da disputa; posso até repensar minha primeira escolha. No entanto, é preciso compreender que nenhuma dessas decisões acontece no vazio.
Neste domingo, quando estivermos diante da urna, cada um de nós terá diante de si aquilo que minha mãe, sem perceber, me ensinou a questionar tantos anos atrás: o que fazemos com o poder que temos de escolher?
Seja qual for a decisão, vale lembrar: voto traz a força da sua voz, responsabilidade e mudança.
Um abraço, e até a próxima!
Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.
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