Quem são os cruéis?
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Quem são os cruéis?

Por William Douglas
28 de May, 2026
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Imagem da Notícia: Quem são os cruéis?

William Douglas - 28/05/2026 11h22

Quem são os cruéis (Imagem ilustrativa) Foto: IA\Chat GPT

Há uma narrativa ideológica que tenta colocar os brancos como sendo todos racistas e os pretos como sendo todos vítimas. Esse discurso é racista.

Veja a definição de racismo do Decreto nº 10.932/2022, Artigo 1º, item 4, que promulgou a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância:

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Racismo consiste em qualquer teoria, doutrina, ideologia ou conjunto de ideias que enunciam um vínculo causal entre as características fenotípicas ou genotípicas de indivíduos ou grupos e seus traços intelectuais, culturais e de personalidade, inclusive o falso conceito de superioridade racial.

Dizer que “todo branco é racista” é racismo. Assim como imputar o racismo a uma etnia ou cor da pele não só é racismo como também é uma deslavada mentira e uma grande desonestidade intelectual e histórica.

Historicamente, a escravidão não foi uma prática exclusiva de europeus contra africanos. Ela existiu em praticamente todas as grandes civilizações humanas durante milênios.

A palavra “escravo” deriva de “eslavo”, povo amplamente escravizado na Idade Média por germanos, bizantinos, árabes e otomanos.

Antes do tráfico atlântico africano atingir grande escala, já havia intenso comércio de europeus escravizados, especialmente entre os séculos 9 e 15.

Também houve escravidão em larga escala de europeus no Mediterrâneo e no norte da África. Entre os séculos 16 e 19, corsários da Barbária capturaram europeus em Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Irlanda, França e Inglaterra.

Outro fato histórico importante: africanos também participaram ativamente do tráfico negreiro africano.

Diversos reinos, elites locais e comerciantes africanos capturavam ou compravam prisioneiros de guerra e os vendiam a traficantes europeus e árabes.

Em muitos casos, eram povos rivais derrotados em guerras tribais. Há registros históricos de negociações envolvendo armas, tecidos, metais, tabaco e até cachaça produzida no Brasil colonial.

Também houve reis africanos que mantiveram relações diplomáticas e comerciais visando ampliar ou preservar participação nesse comércio.

Ao mesmo tempo, também é verdade que foram as potências coloniais europeias que transformaram esse sistema em uma gigantesca estrutura econômica transatlântica baseada em escravidão racial hereditária.

As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

O tráfico atlântico foi o maior e mais racializado sistema escravista da era moderna. Estima-se que cerca de 12 milhões de africanos tenham sido transportados, e milhões morreram antes mesmo de chegar às Américas. O Brasil foi o maior destino do mundo.

O mundo árabe e islâmico também manteve enormes sistemas escravistas por muitos séculos, inclusive antes do tráfico europeu. Milhões de africanos foram escravizados no norte da África, Oriente Médio e Império Otomano.

A escravidão também existiu na China, Japão, Coreia, Índia e em diversos impérios asiáticos. Houve escravidão interna no Japão, tráfico humano e venda de japoneses para portugueses no século 16.

Então, honesta e historicamente:

— A escravidão foi uma prática humana quase universal;
— Não foi inventada por europeus;
— Não foi exclusiva contra negros;
— Houve europeus escravizados;
— Houve africanos escravizadores;
— Houve africanos escravizados;
— Houve árabes escravizadores;
— Houve asiáticos escravizadores;
— Houve asiáticos escravizados.

Também é historicamente correto afirmar que muitos europeus não entravam no interior da África para capturar diretamente escravos. Em grande parte do tráfico atlântico, os escravizados eram capturados por africanos e vendidos nos portos a comerciantes europeus e árabes.

Isso não absolve moralmente os compradores europeus, que financiaram e ampliaram brutalmente o sistema. Mas impede uma narrativa simplista segundo a qual apenas europeus foram agentes ativos e africanos apenas vítimas passivas.

Se alguém quiser discutir reparação histórica com honestidade intelectual, terá de reconhecer também a participação de elites africanas e reinos africanos na captura e venda de outros africanos.

Ao mesmo tempo, o tráfico atlântico teve características particularmente massivas, econômicas e racializadas que o tornaram singular na história moderna.

As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo sem distorção ideológica:

— A escravidão foi amplamente praticada ao longo da história humana;
— E o tráfico atlântico teve dimensão e impacto excepcionais.

A história fica mais séria quando abandona slogans e encara os fatos completos. Transformar todos os brancos em “culpados hereditários” e todos os pretos em “vítimas eternas” não combate o racismo. Apenas cria um novo racismo.

Quem quiser conversar de forma honesta e séria sobre esses temas precisa respeitar a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a realidade histórica.

A solução civilizatória continua sendo a mesma da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Constituição Federal e do próprio Decreto nº 10.932/2022: igualdade de dignidade entre todos os seres humanos, sem espaço para hostilidade racial contra ninguém.

William Douglas é professor de Direito Constitucional, pastor batista, escritor e mestre em Direito.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erro

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