O debate que expôs os limites da velha política
Marisa Lobo - 19/10/2026 10h12
Lula e Flávio no debate na Band Foto: Renato Pizzutto/BandO debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado pela Band, revelou muito mais do que divergências políticas. Expôs estratégias de comunicação, provocações pessoais e uma disputa intensa pelo controle da narrativa.
Na minha avaliação, Flávio Bolsonaro demonstrou mais segurança diante dos ataques, enquanto Lula recorreu, em momentos importantes, à desqualificação pessoal do adversário.
Quando Lula chamou Flávio de “malandro carioca”, não apresentou um argumento político. Apresentou uma provocação. E quando trouxe o pai do senador para uma discussão sobre segurança pública, novamente deslocou o foco da pergunta.
Desde quando atacar a família do adversário é responder aos problemas do Brasil?
Na psicologia política, a desqualificação pessoal pode ser utilizada para enfraquecer simbolicamente o oponente. Mas existe uma diferença fundamental entre exercer autoridade e tentar impô-la por meio da intimidação verbal.
Outro episódio revelador ocorreu quando Flávio apresentou a proposta de melhorar o padrão de atendimento do SUS. Lula reagiu levantando a hipótese de privatização. Mas propor qualidade ao serviço público não significa, necessariamente, defender sua privatização.
Essa é uma estratégia conhecida de enquadramento político: deslocar a discussão de uma proposta concreta para uma associação capaz de despertar receio no eleitor.
Também chamaram a atenção as afirmações econômicas imprecisas de Lula; posteriormente questionadas por checagens jornalísticas. Flávio igualmente apresentou números contestados. A verdade precisa valer para os dois lados.
E aqui faço uma provocação: quando faltam respostas convincentes, o ataque pessoal passa a ocupar o lugar do argumento?
Não seria cientificamente correto diagnosticar descompensação emocional ou atribuir atos falhos inconscientes a um candidato com base em um debate televisivo. Mas é perfeitamente legítimo analisar reações verbais, interrupções, provocações e tentativas de desestabilização.
Na minha leitura, Flávio conseguiu enfrentar esse ambiente sem abandonar os principais temas de sua argumentação. Sua postura transmitiu segurança, especialmente nos momentos de confronto direto.
Lula, por outro lado, mostrou que a experiência política não impede o recurso a ataques pessoais.
Experiência não é sinônimo de equilíbrio comunicacional. Falar mais alto não significa ter razão. E provocar não é governar.
Como psicóloga, considero preocupante quando a política se transforma em um espetáculo de hostilidade, no qual o adversário deixa de ser alguém a ser contestado e passa a ser alguém a ser diminuído.
O eleitor brasileiro merece propostas, explicações e respeito à sua inteligência.
Saí do debate com uma percepção clara: Flávio apresentou uma imagem de segurança que merece ser reconhecida, independentemente das preferências partidárias de quem assistiu.
A pergunta que deixo é simples: o Brasil precisa de um presidente que responda às perguntas ou de um candidato que transforme cada pergunta em um ataque ao adversário?
Porque, na política, a provocação pode produzir manchetes. Mas não substitui argumentos.
Marisa Lobo atua como psicanalista, é pós-graduada em Psicanálise; Gestão e Mediação de Conflitos; Educação de Gênero e Sexualidade; Filosofia de Direitos Humanos e Saúde Mental; tem também habilitação para magistério superior.
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