A ameaça à democracia que ninguém quer enxergar
Sara Ganime - 16/10/2026 09h37
É necessária a alternância de poder (Imagem ilustrativa) Foto: IA\Chat GPTHá um número que não sai da minha cabeça. Se Lula for reeleito no dia 25, o mesmo partido terá governado o Brasil por mais de 21 dos últimos 28 anos. Eu, que tenho 29 anos, passei quase a minha vida toda vendo o Partido dos Trabalhadores (PT) governar o Brasil.
Não escrevo isso para atacar Lula nem o PT. Foi tudo pelo voto, e o voto precisa ser respeitado.
Eu faria a mesma pergunta se fosse qualquer outro partido: é saudável para uma democracia que o mesmo grupo fique tanto tempo no poder?
Tenho pensado muito nisso, e confesso que não é um pensamento tranquilo.
A democracia é frágil. Depende de instituições que às vezes falham, de eleitores que nem sempre acertam e de governantes que precisam aceitar perder. Ainda assim, é o melhor sistema que temos.
Mas o que, afinal, a torna melhor? Karl Popper deu a resposta que me parece mais honesta:
O valor da democracia não está em escolher sempre os melhores, mas em poder tirar quem governa sem derramar sangue. Democracia é, antes de tudo, a possibilidade de trocar.
E quando a troca deixa de acontecer? A regra continua lá, a urna também. Mas, aos poucos, o poder vai se acomodando. Quem governa passa a se ver como dono do lugar, e quem é governado passa a achar isso normal.
No caso do PT, houve até a passagem de Lula para Dilma, mas o partido e o projeto continuaram os mesmos. E deu no que deu: recessão, contas no vermelho e impeachment.
Com o mesmo grupo no poder, a forma de governar se repete. A carga tributária bateu recorde em 2025: 32,4% do PIB, segundo o Tesouro.
Vieram a taxa das blusinhas, a taxação dos fundos e das bets, o aumento do IOF. Até a isenção do Imposto de Renda daqueles que ganham até R$ 5 mil, apresentada como bondade, tem um custo: para que uns deixem de pagar, outros passaram a pagar mais.
Também me preocupa que trocar de cargo nem sempre signifique trocar de gente. Eduardo Paes foi prefeito do Rio de Janeiro por mais de 13 anos e tentou ser governador, com apoio de Lula. Não foi eleito, mas o movimento é conhecido: os mesmos nomes vão passando de um cargo para outro.
Mas o que mais me preocupa é o futuro. Cada eleição que mantém o mesmo grupo no poder torna a troca seguinte mais difícil. A máquina pública cresce, os cargos se multiplicam, mais gente passa a depender do Estado.
Não acho que uma democracia acabe de um dia para o outro. Ela vai se enfraquecendo assim, sem que muita gente perceba.
Para mim, defender a democracia é defender que qualquer grupo possa sair do poder, inclusive o que está lá agora. Quem mais fala em defendê-la deveria ser o primeiro a se preocupar com isso. Quero continuar acreditando que, no Brasil, essa troca ainda é possível.
Sara Ganime é jornalista e defensora da liberdade de imprensa e de expressão. É líder do LOLA Rio de Janeiro e fellow do María Oropeza Activism Fellowship. Com passagens pela cobertura política no Congresso Nacional, acompanha de perto os movimentos liberais na América Latina.
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