Pesquisar as igrejas não é perseguir as igrejas
William Douglas - 16/10/2026 15h47
Culto (Imagem ilustrativa) Foto: PexelsTenho visto críticas à pesquisa realizada pela More in Common Brasil e pelo Grupo Passagens, da UFRJ, sobre discursos eleitorais em missas e cultos. Como cristão, pastor e magistrado, sou defensor da liberdade religiosa e considero importante esclarecer alguns pontos.
Pelo que li, os pesquisadores analisaram celebrações disponibilizadas pelas próprias igrejas no YouTube. Não houve invasão de templos, interrupção de cultos ou impedimento à prática da fé.
Também não se tratou de fiscalização estatal ou de uma investigação destinada a denunciar igrejas à Justiça Eleitoral. O objetivo declarado foi compreender como a política eleitoral aparece nas celebrações religiosas.
Não vejo nisso violação da liberdade religiosa. Igrejas podem ser estudadas, assim como quaisquer outras instituições.
Defender a liberdade de culto não significa impedir a observação e a análise de manifestações públicas.
O mais interessante, porém, é que os resultados da pesquisa foram amplamente favoráveis às próprias igrejas.
Foram analisados 7.456 cultos e missas. Em apenas 3%, os pesquisadores identificaram manifestações que classificaram como propaganda eleitoral.
Já os discursos cívicos, incentivando o voto consciente, o respeito ao próximo e o combate à polarização, foram cinco vezes mais frequentes.
Esses resultados contrariam a acusação generalizada de que as igrejas seriam currais eleitorais e de que pastores e padres manipulam sistematicamente seus fiéis.
A pesquisa encontrou uma realidade muito mais positiva do que aquela frequentemente retratada por críticos das instituições religiosas.
É possível discordar da metodologia e de algumas classificações. Nem tudo o que pesquisadores consideram propaganda eleitoral constitui, necessariamente, infração à legislação. Além disso, a amostra não autoriza conclusões sobre todas as igrejas brasileiras.
Faço, contudo, uma sugestão: seria muito bom que pesquisas semelhantes fossem realizadas em universidades, sindicatos, órgãos públicos e outras instituições.
O respeito à legislação eleitoral é dever de todos, não só das igrejas. Não há razão para que apenas elas sejam objeto de estudos dessa natureza.
Devemos reagir firmemente a qualquer tentativa de perseguição religiosa ou de que os cristãos exerçam sua cidadania. Porém, é preciso distinguir perseguição de pesquisa, crítica de censura e observação de interferência.
Não se limitando às igrejas cristãs, valeria saber como anda o mesmo tema em outras tradições religiosas.
Indo mais além, valeria comparar o grau de rigor do MPT em relação às manifestações eleitorais de empresários e às realizadas em sindicatos.
Nesse sentido, vale acompanhar a denúncia apresentada ao TSE envolvendo estruturas sindicais, o que reforça a importância de cobrar o respeito à legislação eleitoral de todos, sem distinções ideológicas.
Não há contradição entre defender as igrejas, defender a liberdade acadêmica e exigir o cumprimento da lei por todos e para todos.
Termino parabenizando as igrejas cristãs pelo trabalho de formação para a cidadania e pelo respeito à legislação eleitoral, reconhecidos por pesquisadores externos. Que o exemplo dado pelas igrejas cristãs seja seguido por todos!
William Douglas é professor de Direito Constitucional, pastor batista, escritor e mestre em Direito.
* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News. Comunicar erro Comunicar erroSe você encontrou erro neste texto, por favor preencha os campos abaixo. Sua mensagem e o link da página serão enviados automaticamente à redação do Pleno.News, que checará a informação.
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